Como se fala ciclismo?

Olá, sou Leandro Bittar. Jornalista esportivo e há oito anos especializado em escrever e comentar ciclismo. Participo do podcast RadioCorsa e aceitei o convite para escrever uma coluna para o site do programa, já que quase nunca consigo encaixar nas gravações. Com toda a liberdade concedida, escolhi como tema para os textos (que devem ter periodicidade mensal) a linguagem do ciclismo. Daí o nome da coluna. A ideia é narrar aqui um pouco mais sobre os bastidores do jornalismo, as opiniões sobre as publicações, resenhas de livros e tudo o que envolve a informação sobre duas rodas. Porém, de outro ponto de vista.

Vincenzo Nibali (foto: Roberto Bettini)

Vincenzo Nibali (foto: Roberto Bettini)

A inspiração para a minha primeira coluna é um debate que eu tive com os amigos da Revista VO2, onde cresci jornalisticamente e com a qual ainda contribuo e continuo crescendo. Estávamos em dúvida sobre como pronunciar um nome de um ciclista e tenho certeza que você já passou por isso. Certamente, também, já se incomodou com algum narrador ou comentarista de TV, principalmente, aqui no Brasil inventando nomes quase irreconhecíveis. Relevem, essa é uma armadilha muito fácil de cair.

O debate na VO2 era se o italiano mais forte candidato ao título do Giro deste ano, que começa no dia 4/5, é Vincenzo Níbali ou Nibáli. Qual a sílaba mais tônica no sobrenome do Tubarão de Messina. A resposta é Níbali. Como ele mesmo diz no vídeo de apresentação da equipe Liquigas do ano passado.

Onde está a pegadinha nesta história? Para começar, Nibali é um italiano que hoje corre em uma equipe cazaque com bicicletas norte-americanas produzidas na Ásia. Junte isso ao fato de que assistimos o esporte por canais (via stream) de vários cantos do mundo: EUA, Inglaterra, França, Itália e até pelos canais belgas, muito bem batizados pelo Zaka, do Maglia Rosa, como língua do capeta.

Enfim, o ciclismo é um esporte globalizado, mas no qual cada um tem um sotaque e é muito difícil que todos pronunciem da mesma forma. Lembro bem de um exemplo do futebol (sim, esse jornalista gosta dos dois esportes e não entra nesta bobagem de falar mal do mais popular). Os franceses nunca se preocuparam com a pronúncia correta dos nossos craques. Era Ronaldô para lá. Rivaldô pra cá e até soa simpático. Por isso, não se incomodem muito em aportuguesar os nomes. Tenham em mente que Katusha só existe em inglês. Que em russo é Катюша e em muitos lugares se escreve Katyusha (e não faço ideia de como se fala). Assim, chamo de Kátuxa e pronto.

Claro, existem coisas que não podem ser inventadas. Lembro que assim que comecei acompanhar o ciclismo, eu chamava o Levi (tudo bem manter Leví, mas ele diz Livai) Leipheimer (Liprraimer) de Leifemer. Achava que era o certo. Nunca tinha ouvido ninguém pronunciar e inventei o que soava correto para mim. Não existia nem o áudio do Google para checar. Hoje, ciente do certo, tento seguir o padrão.

Temos também vícios muito comuns e que valem a pena usar este espaço para corrigir. A equipe que o Nibali competia é a “Líquigas”. Liquigás é a versão nacional da empresa de gás combustível, mas veja que aqui no Brasil tem acento. Lá não. Hoje o time chama-se Cannondale, que eu vou continuar chamando de Cánondêial, apesar de saber que lá fora fala-se Quennondêal e seu principal astro é o eslovaco Peter “Ságan”.

Pelo amor de Deus! É Miguel “Induráin” (grafia e pronúncia). Qualquer variação é uma invenção. A FDJ ajudou tornando-se uma sigla, mas Française des Jeux pronuncia-se “Francése de Jê”. Ponto. Por fim, não menos importante, o ex-campeão mundial chama-se Thor Hushovd. Os ingleses falam “Rúxovid”. Não acho que deveria varia mais do que isso. Na dúvida, sigam a voz do ciclismo Phil Liggett, que quase não pronuncia a letra d no final.

Resumo

O jornalismo brasileiro tende a copiar ao máximo a pronúncia dos nomes na forma original do idioma. Por isso, o Manchester (que eu cresci falando Manchéster) agora virou Mántchester. Voto por um meio termo, respeitando o que é popular no Brasil, como o espanhol Alberto Contador. Con-tá-dor. Na França é Contadô (quase sem o r) e o próprio Liggett, nossa referência, americaniza com Cóntador. Não vejo por que imitá-los.

E você? Quais são as pronúncias que mais lhe doem os ouvidos? Na dúvida, procure no Youtube os vídeos nos quais o próprio atleta ou time pronuncia seus próprios nomes. Só não invente! Também, seja educado com quem fala algo diferente de você. No máximo, dê um toque.

It’s all about the bike – Resenha

No catastrófico episódio onde perdemos os posts do último semestre por problemas técnicos, um dos textos perdidos foi uma resenha que escrevi sobre o livro “It’s all about the bike” de Robert Penn. Gostei tanto do livro que vale a pena re-escrever.

Its All About The Bike - Robert Penn (imagem: www.thebicycleacademy.org)

Its All About The Bike – Robert Penn (imagem: www.thebicycleacademy.org)

Robert Penn é um jornalista inglês e um ciclista aventureiro, que já pedalou em lugares interessantes nos quatro cantos do mundo e passou pelas situações mais inusitadas. O título em si é uma paródia o famoso livro de Lance Armstrong (“It’s not about the bike“), onde o ciclista conta sua história de recuperação do câncer. No livro, ao que me consta ainda sem tradução para português, nos conta a história da construção de sua bike “dos sonhos”! A última bike que vai montar!

O livro começa com a história social da bicicleta e sua influência nos movimentos sociais do final do século XIX. Depois, em cada capítulo, temos a construção ou compra de uma peça, a história do fabricante, colocando em contexto sua escolha e o desenvolvimento técnico da peça desde sua invenção.

A primeira parte é a construção do quadro, em aço, feito sob medida na Rourke Cicles na Inglaterra e a história continua com Penn viajando para Itália e Estados Unidos para comprar o guidão na Cinelli, câmbios na Campagnolo, a caixa de direção na Chris King, entre outros, e termina com as rodas feitas a mão por Steve “Gravy” Gravenites, um dos inventores do Mountain Bike, o que da direito a Penn descer o mítico Repack com Charlie Kelly e Joe Breezer, outros pais do esporte.

O destaque fica, no meu ponto de vista, para a evolução da bicicleta em geral, como a passagem da Draiseana para a Penny Farthing (aquela com a roda dianteira enorme) e finalmente para o formato que conhecemos e de como isso somente é possível com os desenvolvimentos tecnológicos, como a invenção da corrente que permitiu levar a transmissão para a roda traseira ou a própria invenção do pneu!

O texto em si é muito bem escrito, deixando a leitura muito agradável. É um daqueles livros que você começa a ler e não quer mais parar.