Porque o caminho existe

Resolvi reviver a coluna que tinha que tinha no site Prólogo e na revista VO2, que por vários motivos foi descontinuada. Como gostava muito de escreve-la, a estou trazendo de volta, mas agora sem os compromissos de cumprir datas de fechamento de edição e outras coisas de revista impressa. Vamos ver se consigo ser editor de mim mesmo!

Finalmente chegou a primavera por aqui, em teoria, e nada melhor que unir passeios familiares a lugares bonitos e atraentes para pedalar. A primeira oportunidade seria uma viagem de final de semana. Nada longe de casa, assim posso abusar no equipamento. A dúvida era “levo a speed também, além das mountain bikes? Assim faço um pedal matinal antes de sair com a família?”. Domingo tem Paris-Roubaix, mas entre assistir televisão e pedalar, não fica dúvida, o pedal ganha.

Paris-Roubaix 2013 (Foto: Reuters)

Paris-Roubaix 2013 (Foto: Reuters)

Final de semana no lago Chiemsee, famoso pelas rotas de cicloturismo, hospedagem a preço bom, equipamento arrumado, família contente, tudo arranjado. Tudo? Quase tudo! Infelizmente já no começo da semana ficou claro que pedal não ia ser o ponto forte do feriado. Previsões entre tempo ruim e tempo péssimo! Decisão difícil, as bikes ficam em casa. Não tenho problemas em limpar as bikes, se as tiver usado, mas limpar sujeira de chuva no teto do carro e não pedalar nada, é demais!

Na verdade pensamos em cancelar a viagem, mas valia pelo tempo longe de casa e dos problemas, afinal, nem só de ciclismo e fotografia vive o homem. Então fomos tomar chuva no lago. Lado positivo … tem um? Tem! Iria ter tempo de assistir a Paris-Roubaix!

Comentando com minha esposa sobre os acidentes das clássicas do norte, como o do do belga Tom Boonen (Omega Pharma-Quickstep) este ano, ou do suíço Fabian Cancellara (Radio Shack) com fratura múltipla da clavícula no ano passado, veio uma pergunta interessante: “se é tão perigoso, porque eles aceitam correr?”. A primeira coisa que me veio a mente foi o comentário atribuído ao Francês pentacampeão do Tour de France, Bernard Hinault, que definiu estas provas como “um circo” e que não as corria por “não ser um palhaço”. Eu pessoalmente nunca vi confirmação desta citação, mas bate com o temperamento de Hinault.

O pensamento seguinte foi, porque nós mesmos fazemos isso? Porque acordamos de madrugada, sacrificamos horas com famílias e amigos nos final de semana, tentamos coexistir com carros em estradas e sofremos sobre nossos selins?

Eu realmente não sei porque. É algo “maior que nós mesmos”. Os alpinistas dizem que escalam “porque a montanha existe”. Nesta linha, poderíamos dizer então que pedalamos porque “o caminho existe”. Será que vale como justificativa? Acho que não, mas quem precisa de justificativa para pedalar? No final, entre “prestigio”, “estilo” e outras desculpas, não consegui explicar para minha esposa porque os corredores participam destas provas.

Nesta linha sobre porque pedalamos e o que passa em nossas cabeças enquanto o fazemos, estou terminando de ler um livro muito interessante e daqueles que se começa a ler sem parar. “The Rider” do ciclista e enxadrista holandês Tim Krabbé. Krabbé descreve quilômetro a quilômetro sua participação em uma prova amadora, com todos os pensamento e atitudes do decorrer da mesma. Vale a pena ser lido.

Voltando à Paris-Roubaix! Ano passado tivemos a vitória do belga Tom Boonen (Quickstep-Omega Farma) com um ataque a mais de 50 quilômetros da chegada, no melhor estilo Fabian Cancellara. E este ano tivemos a vitória de Cancellara em um sprint dentro do velódromo, no melhor estilo Tom Boonen. A impressão era claramente que tanto Cancellara quanto Sep Vanmarcke (Blanco) estavam tentando lembrar de provas de pista para saber como sprintar corretamente em um velódromo!