O Giro em Israel ou quando esporte e política são duas faces de uma mesma moeda

Com o Giro tendo deixado terras israelenses e já percorrendo terras italianas, junto a caravana veio a reboque um enorme questionamento: o que o Giro d’Italia foi fazer em Israel? Inspirado pela postagem “Hidden Motivations” no blog Inner Ring, resolvi eu trabalhar melhor o assunto ou, pelo menos, trabalhar o assunto em língua portuguesa.

O artigo do Inner Ring nos traz a seguinte fala logo em seu terceiro paragrafo: “To those who say ‘sport and politics shouldn’t mix’ I sympathise, we’re here for the sport”, ou, traduzindo: “Com aqueles que dizem ‘esporte e política não devem se misturar’ eu me identifico, nós estamos aqui para falar de esporte.” Desde já, adianto, desde que o esporte é esporte e, mais precisamente, desde que qualquer tipo de expressão cultural surgiu no mundo, a política sempre esteve envolvida. Assim sendo, já deixo claro, estamos aqui para falar de política e não apenas de esporte.

Para evidenciar o que disse acima, olhemos para a história do irmão mais velho da volta italiana, o Tour de France. Como é sabido por todos, o Tour foi uma invenção de Henri Desgranges, editor-chefe do jornal L’Auto, que queria uma maneira eficiente de vencer a competição por vendas contra o Le Vélo. Ao fundar o Tour, o L’Auto teria o monopólio sobre as notícias da competição.

O que é pouco falado, entretanto, é a real motivação por trás dessa luta por leitores. A verdade é que o L’Auto não apenas era um jornal profundamente nacionalista, como a maioria da imprensa francesa pós-Guerra Franco-Prussiana, mas também era um jornal profundamente antissemita. À época do surgimento do Tour, estava em voga na sociedade francesa a discussão acerca do Caso Dreyfuss, um oficial do exército francês acusado de repassar segredos militares aos alemães. Contra ele havia uma grande prova: o fato de ele ser judeu. Assim, nos debates acerca do caso da imprensa francesa, de um lado estava o dono do Le Vélo, pró-Dreyfuss, e do outro, os donos do L’Auto, contrários a Dreyfuss em linhas antissemitas.

É importante também frisar a importância do Tour para a ideia da nacionalidade francesa. Embora essa não fosse a ideia central por trás da criação da competição, o Tour (o Giro e, principalmente, a Vuelta também) foi importante para consolidação do nacionalismo francês: num país, até hoje, muito centralizado politica e economicamente em Paris, levar publicidade a outras regiões francesas, especialmente ao interior, foi importantíssimo para a consolidação de uma identidade nacional.

Voltando ao Giro, sua criação se deu nos moldes do Tour, tirando a parte do antissemitismo, com a ideia de vender mais jornal, embora a Gazzeta já tivesse criado a Milano-San Remo e o Giro di Lombardia. Com o tempo e a ascensão do fascismo na Itália, o Giro não passaria incólume a tentativa de instrumentalização por parte do governo de Mussolini. Entretanto, a prova foi salva dos fascistas pelo machismo italiano devido ao fato de sua cor principal ser o rosa.

Com essa breve introdução de como esporte e política sempre andaram interligados no ciclismo, voltemos aos dias atuais.

O Giro deste ano se iniciou em Jerusalém Ocidental, isto é, a parte israelense da cidade, porém, o Giro apenas anunciou a largada acontecendo na cidade de Jerusalém, em Israel. Pode nos parecer uma diferença insignificante, mas seu significado político é imenso. Jerusalém é uma cidade dividida entre palestinos e israelenses e, por isso, compõe tanto o território do Estado Israel, como o do Estado Palestino. Ao divulgar a cidade de partida do Giro como “Jerusalém, Israel” o Giro ajuda a consolidar a posição israelense de que Jerusalém é apenas de Israel, indo na direção contrária não apenas da União Europeia, mas contra a posição majoritária no mundo todo. Essa posição também ajuda a sinalizar o enfraquecimento da ideia da solução de dois Estados, ideia esta já profundamente frágil desde o anúncio da mudança da embaixada estadunidense para Jerusalém.

Isto por si só já evidenciaria o uso do Giro como uma arma de diplomacia esportiva por parte de Israel, porém exata função vai muito além. Aqueles que tem o costume de assistir provas de ciclismo por streamings, especialmente os da Eurosport, devem se lembrar das várias propagandas de incentivo ao turismo em Israel. O Giro sair de Israel só é mais uma etapa dessa iniciativa. Através do turismo, Israel pode ajudar a contrabalancear a imagem que cada vez mais vem sendo construída em relação ao país, especialmente devido às suas posições cada vez mais agressivas em relação à causa palestina, ao Irã e às populações árabes.

A necessidade de Israel em atacar essa imagem se deve a vários fatores. Primeiramente, a imagem do país, especialmente com os europeus, tem se degradado. Os últimos anos viram uma ligeira mudança na posição europeia com Israel: se antes, Israel via pouca oposição na maioria das atitudes tomadas por seu governo, hoje o país dá de encontro com críticas vindas do velho continente, especialmente em relação às políticas de assentamentos. Pesa contra Israel também sua posição inflexível em relação ao Irã, como por exemplo, em relação às recentes acusações contra o país islâmico e seu programa nuclear. As mais recentes acusações de corrupção contra seu primeiro-ministro também não ajudam muito.

Por essas e outras Israel tenta melhor sua imagem aos olhos do mundo, principalmente aos da Europa. O Giro é uma ótima oportunidade para isso, além de mostrar a capacidade de organização de Israel (algo que, diga-se, não precisa ser reafirmado), ajuda a mostrar sua população como um povo vibrante e acolhedor, além de mostrar as paisagens do país.

Esse não é o único exemplo dentro do ciclismo. Usos políticos mais descarados já existiram no passado, como foi o caso do, felizmente, finado Giro di Padania, realizado na Itália.

Acontecendo no norte da bota, o Giro di Padania vinha como uma tentativa de consolidar a existência da inventada região da Padania, criada como uma tentativa de diferenciar o norte italiano do sul por neofascistas daquele país, afirmando a superioridade do norte sobre o sul. A prova foi uma criação de Michelino Davico, senador italiano pela Lega Nord, partido notório por ser, não apenas defensor das ideias já demonstradas, mas também notoriamente racista, xenofóbico e autoritário.

Ideia parecida às duas acimas vemos nas equipes bancadas por governos no ciclismo. Exemplos são vários, desde a Euskatel-Eukadi, até as recentes e gigantes Bahrein-Merida e UAE-Emirates, todas às estas equipes serviram ou servem pra muito mais do que fomentar o ciclismo nacional de cada um dos patrocinadores, servem também como outdoors ambulantes e extremamente bem-sucedidos. Exemplos disso são muitos e não caberiam todos aqui.

Não apenas mirando grandes eventos, como Copas do Mundo de esportes coletivos e Olimpíadas, o esporte como um todo tem profundas ligações com a política, seja em pequena ou grande escala. A saída do Giro de Israel ou sua finalização em Roma, Milão ou Turim, todos esses casos não são meros eventos celebrando o esporte e seus competidores, mas sim ações políticas pensadas e instrumentalizadas por aqueles que as promovem. Por isso, não se espantem quando esporte e política se misturam, afinal, o esporte é também um campo de disputa política, espantoso é achar que isso não deva ocorrer.

 

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About Danilo Ricco

Fã de ciclismo desde o 12 anos idade, nunca gostou de atletas de linha e é um inveterado torcedor de zebras, especialmente francesas ou se for Dan Craven. Começou acompanhando o ciclismo de estrada através das transmissões do Tour pela ESPN, que assistia durante as férias de julho na casa de seus avós. Com o tempo passou a ser o fã de MTB, porém nunca fechando os olhos as demais modalidades do ciclismo. Hoje, é históriador formado pela UFF.