Os times

É impressão minha ou a primeira grande volta do ano trouxe também uma maior preocupação com a pronúncia dos nomes? Przemysław Niemiec (Lampre) foi destaque no Giro e nas transmissões. Legal esta atenção, mesmo que eu não acredite na necessidade de sermos todos poliglotas e preocupados com a pronúncia original dos nomes.

Apresentação do Team Cannondale 2013

Apresentação do Team Cannondale 2013

Nesta edição, aproveito o espaço para propor um debate de outra nomenclatura ciclística: as equipes. Compartilho inicialmente a minha opinião. Acho que têm que ser respeitado os patrocinadores em todas as publicações e ou reportagens sobre ciclismo. No entanto, acredito que uma equipe tem que ter uma identidade que prevaleça sobre aquele investidor, pois ele tem uma vida temporária ali na camiseta e no nome.

Não sei se todos vocês sabem, mas todo time nacional precisa estar associado a um clube, associação ou entidade esportiva. Assim, alguns times, como os da cidade de Ribeirão Preto e Florianópolis, estão unidos aos clubes de futebol Botafogo e Avaí, respectivamente. Já outros como a esquadra de Americana têm como patrocinador principal o grupo São Lucas Saúde, mas o time é a União Americanense de Ciclismo.

No ciclismo internacional ocorre algo muito similar. Os times são licenças concedidas pela UCI a organizações esportivas como a italiana Brixia Sport, que administra a equipe de patrocinador/nome Cannondale. A Brixia comprou o direito da esquadra, que pertencia a Liquigas Sport. Isso faz com que os nomes mudem, mas os projetos permaneçam sob a mesma direção. O time de Santos é patrocinado pela Memorial, que também dá nome ao clube: GRCE Memorial.

Mas por que respeitamos os nomes oficiais das equipes internacionais e aqui é uma bagunça? Como o principal canal de comunicação do esporte chama-os apenas pelo nome da cidade? Para começar, porque nos rankings UCI o time precisa cadastrar seu nome oficial no começo da temporada e todos os contratos de transmissão deixam isso bem claro. Ok, você pode chamar a Saxobank de CSC por um tempo ou confundir o Peter Sagan como atleta da Liquigas, mas todas as comunicações oficiais trazem os nomes completos.

No Brasil é muito normal o contrário. Recentemente, li três versões para o nome da equipe DataRo: DataRo/Rosseti/Foz do Iguaçu, DataRo/Maxxis e Clube de Ciclismo DataRo. E não foi em blog ou algo parecido, foi no release da própria equipe, nos comunicados da assessoria da Copa América e na página da Liga de Ciclismo. Fora as classificações oficiais na CBC. Nunca confere.

Esta última, a Liga, é a grande esperança de que algo mude no futuro próximo. Pois, carrega a expectativa de unificar, padronizar, divulgar e negociar com a televisão uma forma razoável de transmitir esses nomes.

Imagina um jornal que tenha uma coluna para falar de ciclismo e o seguinte texto:

O velocista argentino Franscisco Chamorro, do Team FUNVIC/Brasil Invest/Marcondes Cesar/Caloi/Pindamonhangaba, venceu a 25ª edição da Copa Radio Corsa. Ele bateu o veterano Jean Coloca, da Penks/Vzan/DKS Bike/Maxxis/Calypso/New Millen/São Caetano do Sul, e o compatriota Edgardo Simon, da Iron Age/Colner/Sorocaba/Penks. Os três disputaram o sprint após o pelotão neutralizar no último km a fuga da dupla Thiago Nardim, do time São Francisco Saude/Powerade/Botafogo/Ribeirao Preto e Geraldo Souza, São Lucas/Giant/Cicloravena/Americana.

Não dá. Imagine agora na TV, onde segundos são milhões de reais.

Enquanto trabalhei no Prólogo e na VO2 desenvolvi o que eu achava (e acho) ideal neste cenário: Patrocinador Principal/Patrocinador Secundário/Cidade-Sede.

Procurava os times e conversava como era melhor para eles. Mesmo sabendo que algumas cidades são o principal investidor das equipes, através das suas secretárias, acho que esta é a melhor forma de colocar todos os nomes ali. E isso é muito mais produtivo do que o inviável Penks/Vzan/DKS Bike/Maxxis/Calypso/New Millen/São Caetano do Sul. Você realmente acha que, em algum lugar do mundo, este pode ser o nome da equipe?

O efeito destes nomes extensos é a busca por apelidos. Por anos, qualquer que fosse o patrocinador principal, o pelotão comentou sobre a equipe de Pinda, Americana e Ribeirão. Ao mesmo tempo, Memorial, Scott e DataRo poderiam abandonar o ciclismo que continuariam dando nome às equipes de Santos, São José (extinta) e ao time paranaense, que já fincou base em Cascavel, Ponta Grossa e Nova Iguaçu.

Os veículos de informação optam pela lei do menor esforço. É preciso dar isso mastigado e definido. Assim como os torcedores e os próprios atletas. Os dirigentes precisam entende e agir quanto a isso logo. É compreensível a necessidade de captar investidores, mas estes nomes, hoje, são o anti-marketing.

Como se fala ciclismo?

Olá, sou Leandro Bittar. Jornalista esportivo e há oito anos especializado em escrever e comentar ciclismo. Participo do podcast RadioCorsa e aceitei o convite para escrever uma coluna para o site do programa, já que quase nunca consigo encaixar nas gravações. Com toda a liberdade concedida, escolhi como tema para os textos (que devem ter periodicidade mensal) a linguagem do ciclismo. Daí o nome da coluna. A ideia é narrar aqui um pouco mais sobre os bastidores do jornalismo, as opiniões sobre as publicações, resenhas de livros e tudo o que envolve a informação sobre duas rodas. Porém, de outro ponto de vista.

Vincenzo Nibali (foto: Roberto Bettini)

Vincenzo Nibali (foto: Roberto Bettini)

A inspiração para a minha primeira coluna é um debate que eu tive com os amigos da Revista VO2, onde cresci jornalisticamente e com a qual ainda contribuo e continuo crescendo. Estávamos em dúvida sobre como pronunciar um nome de um ciclista e tenho certeza que você já passou por isso. Certamente, também, já se incomodou com algum narrador ou comentarista de TV, principalmente, aqui no Brasil inventando nomes quase irreconhecíveis. Relevem, essa é uma armadilha muito fácil de cair.

O debate na VO2 era se o italiano mais forte candidato ao título do Giro deste ano, que começa no dia 4/5, é Vincenzo Níbali ou Nibáli. Qual a sílaba mais tônica no sobrenome do Tubarão de Messina. A resposta é Níbali. Como ele mesmo diz no vídeo de apresentação da equipe Liquigas do ano passado.

Onde está a pegadinha nesta história? Para começar, Nibali é um italiano que hoje corre em uma equipe cazaque com bicicletas norte-americanas produzidas na Ásia. Junte isso ao fato de que assistimos o esporte por canais (via stream) de vários cantos do mundo: EUA, Inglaterra, França, Itália e até pelos canais belgas, muito bem batizados pelo Zaka, do Maglia Rosa, como língua do capeta.

Enfim, o ciclismo é um esporte globalizado, mas no qual cada um tem um sotaque e é muito difícil que todos pronunciem da mesma forma. Lembro bem de um exemplo do futebol (sim, esse jornalista gosta dos dois esportes e não entra nesta bobagem de falar mal do mais popular). Os franceses nunca se preocuparam com a pronúncia correta dos nossos craques. Era Ronaldô para lá. Rivaldô pra cá e até soa simpático. Por isso, não se incomodem muito em aportuguesar os nomes. Tenham em mente que Katusha só existe em inglês. Que em russo é Катюша e em muitos lugares se escreve Katyusha (e não faço ideia de como se fala). Assim, chamo de Kátuxa e pronto.

Claro, existem coisas que não podem ser inventadas. Lembro que assim que comecei acompanhar o ciclismo, eu chamava o Levi (tudo bem manter Leví, mas ele diz Livai) Leipheimer (Liprraimer) de Leifemer. Achava que era o certo. Nunca tinha ouvido ninguém pronunciar e inventei o que soava correto para mim. Não existia nem o áudio do Google para checar. Hoje, ciente do certo, tento seguir o padrão.

Temos também vícios muito comuns e que valem a pena usar este espaço para corrigir. A equipe que o Nibali competia é a “Líquigas”. Liquigás é a versão nacional da empresa de gás combustível, mas veja que aqui no Brasil tem acento. Lá não. Hoje o time chama-se Cannondale, que eu vou continuar chamando de Cánondêial, apesar de saber que lá fora fala-se Quennondêal e seu principal astro é o eslovaco Peter “Ságan”.

Pelo amor de Deus! É Miguel “Induráin” (grafia e pronúncia). Qualquer variação é uma invenção. A FDJ ajudou tornando-se uma sigla, mas Française des Jeux pronuncia-se “Francése de Jê”. Ponto. Por fim, não menos importante, o ex-campeão mundial chama-se Thor Hushovd. Os ingleses falam “Rúxovid”. Não acho que deveria varia mais do que isso. Na dúvida, sigam a voz do ciclismo Phil Liggett, que quase não pronuncia a letra d no final.

Resumo

O jornalismo brasileiro tende a copiar ao máximo a pronúncia dos nomes na forma original do idioma. Por isso, o Manchester (que eu cresci falando Manchéster) agora virou Mántchester. Voto por um meio termo, respeitando o que é popular no Brasil, como o espanhol Alberto Contador. Con-tá-dor. Na França é Contadô (quase sem o r) e o próprio Liggett, nossa referência, americaniza com Cóntador. Não vejo por que imitá-los.

E você? Quais são as pronúncias que mais lhe doem os ouvidos? Na dúvida, procure no Youtube os vídeos nos quais o próprio atleta ou time pronuncia seus próprios nomes. Só não invente! Também, seja educado com quem fala algo diferente de você. No máximo, dê um toque.